Capítulo 06 - O Napolitano Especial da Shinobu (Parte Final)
Vermelho.
Muito vermelho.
A massa inteira era… vermelha.
— Senhorita Fräulein, o que vem a ser isto?
Ele perguntou pausadamente, separando cada palavra. Com uma leve carga de intimidação na voz.
Geanot tinha pedido, sem dúvida, um prato de massa.
— Senhor cliente, isto é espaguete. Napolitano.
A garçonete não se deixou abalar. Retrucou com o mais radiante dos sorrisos. Corajosa.
Sem que aquele sorriso o pressionasse de fato, Geanot baixou o olhar para o próprio prato.
Continuava vermelho.
Era o vermelho do tomate algo que ele não comia havia muito tempo.
Mas ainda assim… vermelho demais.
Nem mesmo no sul do Império, onde crescera, vira um espaguete tão completamente tingido dessa cor. Mesmo pratos como bolonhesa ou puttanesca exibiam uma paleta mais comedida.
Os ingredientes eram simples.
Pimentão, cebola e bacon. Num Império onde vegetais eram raros, o verde do pimentão era quase nostálgico e bem-vindo. O bacon, ao contrário do que esperava, não era uma fatia pobre e fina, mas generosa, espessa.
— Ah, percebeu? Esse bacon grosso é o petisco que o mestre guarda para acompanhar a bebida da noite.
Geanot assentiu. Se era digno de acompanhar a bebida do dono, justificava aquela espessura.
Ainda assim, servir algo tão luxuoso indicava que o estabelecimento tinha folga financeira.
Excessos deviam ser contidos. Talvez até merecessem investigação fiscal.
Pensando nisso, levou o espaguete à boca.
Doce?
Não. Não era apenas doce.
A doçura e a acidez do tomate se entrelaçavam perfeitamente aos fios da massa.
O ponto de cozimento era impecável quase, quase restava um núcleo firme no centro.
Aquela garçonete, apesar da aparência, não era alguém comum.
E, no entanto, ele não conseguia parar.
Havia algo infantil no sabor.
Não era comida apropriada para alguém como ele, membro do Conselho Municipal.
E mesmo assim… não conseguia parar.
Que sabor era aquele que se espalhava pela boca com tamanha intensidade pegajosa?
— Senhor, vai querer queijo e Tabasco?
— Queijo… e Tabasco?
— Sim, vou deixar aqui.
Ela depositou dois recipientes sobre a mesa.
Um tubo verde e uma garrafa de vidro vermelho. O tubo continha queijo ralado em pó.
Ele polvilhou um pouco sobre uma porção separada e provou.
Delicioso.
Quem quer que tivesse concebido essa combinação era um gênio. Talvez um chef renomado digno até de indicação ao Conselho.
Restava o outro.
“Tabasco”, dissera ela.
Com cautela, Geanot sacudiu algumas gotas sobre o Napolitano.
Vida.
Universo.
A resposta para todas as coisas.
Naquele instante, Geanot recebeu uma revelação.
A harmonia entre doce, ácido e picante expandiu-se em sua boca.
No turbilhão de sabores, o pimentão oferecia amargor, a cebola suavidade, e o bacon espesso uma gravidade reconfortante.
Era um milagre.
Amor divino manifestado na terra.
Um texto sagrado sob a forma de espaguete.
Sem se importar com o molho manchando-lhe os lábios, devorou o Napolitano.
Que encontro. Que felicidade.
Quando percebeu, o prato estava vazio.
Sentiu vergonha de ter julgado o sabor infantil.
Era, na verdade, o gosto capaz de evocar a infância esquecida.
E aquela mistura sublime…
Aquela unidade de sabores ensinara-lhe sobre a beleza da vida, a preciosidade do universo.
Até o prato branco, agora vazio, parecia falar sobre a transitoriedade da existência.
— S-Senhor… o senhor comeu com tanta pressa… estava com fome?
— Não, não é isso. Estava simplesmente delicioso. Muito obrigado, senhorita Fräulein.
Geanot retirou a carteira e colocou sobre a mesa uma grande moeda de ouro.
— Uma moeda de ouro? Não tenho troco suficiente…
— Não precisa de troco.
— Mas…
— Com licença, então.
— Não vai esperar o mestre?
— Não. Não numa casa como esta.
De costas, Geanot partiu silenciosamente.
Talvez fosse hora de abandonar o trabalho que só lhe rendia rancor. Doar o que ganhara. Quem sabe voltar para casa.
Enquanto caminhava, tinha a impressão de que os transeuntes lhe sorriam.
Dias assim tornavam a vida leve.
— Ele foi embora…
Shinobu recolheu o guardanapo de papel que pretendia lhe entregar.
Com tanto ketchup ao redor da boca, certamente arrancaria risadas na rua.
Mas decidiu guardar aquela imagem no seu pequeno cofre de joias do coração.