segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O Mestre do Ragnarok - Capítulo 02

Capítulo 02 

Abram caminho! Pai! Paaai!”

Com uma voz límpida e firme clara como o tilintar de um sino que não pertencia àquele campo de batalha surgiu à vista uma cavaleira que avançava rompendo as fileiras, a cauda prateada ondulando atrás de si.

— Oh! É a senhorita Zigrune!
— Continua deslumbrante como sempre!

Aqui e ali escapavam exclamações quase inebriadas, deslocadas demais para um cenário de guerra. Yuto até entendia o encanto.

Mesmo à distância, era impossível não notar a beleza da jovem. Esbelta, de membros longos e delicados, conduzia o cavalo com os cabelos prateados esvoaçando ao vento uma visão tão etérea que parecia saída de um mito.

— Senhorita, dizem que mais uma vez conquistou grande feito!
— Como esperado da Mánagarmr! A “Chifre” não foi páreo para vós!
— Saiam da frente.

Zigrune respondeu com frieza cortante, lançando aos soldados que a adulavam um olhar glacial, desprovido de emoção. A lâmina de seus olhos bastou para que eles encolhessem o corpo, sufocando pequenos gritos.

Sua beleza, já austera, tornara-se ainda mais afiada nos últimos dois anos. Havia nela algo semelhante a uma lâmina nua como se tocá-la significasse ser imediatamente cortado. Embora parecesse frágil a ponto de mal conseguir empunhar uma espada, era a legítima herdeira do título de Mánagarmr, a Mais Forte Loba Prateada, incomparável mesmo entre a elite do clã Lobo. Nos olhos dos soldados misturavam-se respeito e um inequívoco temor.

— Ah!

Ao reconhecer Yuto, seu semblante severo se desfez num instante. Ela refreou o cavalo, aproximou-se do carro de guerra e desmontou com leveza.

— Pai! Está bem? Não sofreu nenhum ferimento?
— Nem fui à linha de frente. Como poderia me machucar? Você é quem deveria me dizer isso, Rune. Está ferida?
— Fique tranquilo. Sob a bênção de Angrboda, não sofri sequer um arranhão.
— Ainda bem. E quanto à captura da líder da “Chifre”… fez um excelente trabalho.
— Sinto-me honrada por vossas palavras.

Embora o discurso fosse formal, o rosto de Zigrune iluminou-se de alegria incontida. Tentou recompor-se ao perceber, mas o sorriso insistia em escapar.

— Pff… A Rune é mesmo um cachorrinho fiel — murmurou Felicia.
— Pfft!

Yuto não conseguiu conter o riso. Era cruel pensar assim, mas ao vê-la naquele estado, a palavra “senta” lhe vinha inevitavelmente à mente.

— Pai? Há algo estranho?

Ela inclinou a cabeça gesto que só reforçou a comparação. Yuto desviou o olhar, cobrindo a boca.

— N-não é nada. Esqueça.

Apressou-se em mudar de assunto antes que se entregasse.

— Falando nisso, sua recompensa. O que deseja? Foi um feito extraordinário. Pode pedir o que quiser.
— Qualquer coisa?
— Desde que esteja ao meu alcance.
— Então… poderia… acariciar minha cabeça?

Zigrune ergueu os olhos brilhantes para ele, pedindo algo tão singelo que quase parecia inacreditável.

— Só isso? — Yuto coçou a face, constrangido. — Isso é pouco demais…

Como patriarca, premiar feitos era uma de suas funções mais importantes. Limitar-se a um afago soaria inadequado diante da captura da líder inimiga.

— Para mim, é a maior das recompensas!

Sem fingimento ou cálculo, era seu desejo genuíno.

Yuto suspirou com um meio sorriso e pousou a mão em sua cabeça.

— Você fez muito bem.
— Consegui ser útil para o senhor?
— Mais do que imagina.

Ao lado, Felicia se contorcia de tanto rir.

— Consigo ver! Vejo claramente uma cauda abanando!

A bela loira estava agachada, tremendo de tanto rir, arranhando a lateral do carro de guerra.

— Ignore-a — murmurou Yuto. — Há coisas neste mundo que é melhor não saber.
— Entendo! Suas palavras sempre têm profundidade, pai!
— Não foi nada disso que eu quis dizer…

Zigrune era, em essência, uma guerreira. Seu talento era inegável, mas o título de Mánagarmr viera do fato de ter dedicado a vida exclusivamente à arte marcial, descartando o resto como trivialidade.

Por isso, só abria o coração a quem reconhecia como forte.

Nos primeiros seis meses após Yūto chegar àquele mundo, ela o tratara pior que um soldado raso como uma pedra esquecida junto à lareira. E pensar que agora ajoelhava-se diante dele, reconhecendo-o como senhor absoluto…

— Que ironia… — murmurou Yūto.

Dois anos bastaram para transformar tudo: o mundo ao redor e ele próprio. A pele outrora pálida estava queimada de sol; o corpo, antes frágil, tornara-se firme e musculoso. Já não era o garoto assustado que ali chegara sem saber ler ou escrever direito.

Agora era o patriarca do clã Lobo, responsável por dezenas de milhares de vidas.

— Chega de nostalgia. Rune, onde está a líder da “Chifre”?
— Confiei sua custódia a soldados próximos. Devem estar trazendo-a.

O sol poente tingia o céu de vermelho. Corvos grasnavam, atraídos pelo sangue.

Yuto pensava no destino da líder inimiga. Matá-la significaria tornar-se o “assassino do pai” aos olhos do clã rival, perpetuando o ódio. Contudo, libertá-la sem contrapartida também seria inaceitável.

Ele tirou do bolso seu velho smartphone mantido vivo graças a uma pequena bateria solar que ainda lhe garantia cerca de trinta minutos de uso por dia.

Abriu o e-book de Sun Tzu — A Arte da Guerra.

“A suprema excelência consiste em subjugar o inimigo sem lutar.”



— A melhor vitória é a que evita a guerra… — murmurou.

A solução era um acordo.

Yuto não tinha ambição territorial. Seu único objetivo era garantir paz e prosperidade ao povo do Lobo.

E havia um meio: o ritual da Taça Sagrada, que selava laços inquebráveis entre patriarca e subordinado. Se conseguisse que a líder inimiga aceitasse sua taça, transformaria rivalidade em vínculo.

Mas persuadir alguém orgulhoso a aceitar tal submissão seria tarefa árdua.

Yuto suspirou longamente.

Se suportar um pequeno desconforto poupasse vidas, o preço seria baixo.

— Muito bem. Ergam a tenda. Preparem-se para a audiência.

A guerra poderia ter terminado ali não pela espada, mas pela taça.